Places
Codó
Maranhão, Brasil
Os encantados e as pessoas
Codó é um município do interior do Maranhão, no Nordeste do Brasil. Segundo o IBGE, possuía 114.275 habitantes no Censo de 2022 e uma população estimada de 118.283 pessoas em 2025. A cidade é amplamente conhecida pela presença do terecô, tradição religiosa afro-brasileira fortemente ligada às histórias negras, rurais e afroindígenas da região.
Hoje, o terecô se organiza em torno de casas de culto conduzidas por mães e pais de santo, onde os rituais acontecem e uma ampla variedade de entidades é recebida nos corpos de mulheres e homens. Embora grande parte da experiência religiosa se desenvolva nesses espaços rituais, a presença dos encantados — como esses seres são amplamente conhecidos — também se estende para a vida cotidiana, marcando casas e ruas do Maranhão e moldando a vida daqueles com quem se relacionam.
As entidades recebidas nas casas de Codó são bastante diversas. Encantado é um termo geral utilizado no terecô, mas esses seres também estão presentes em diferentes práticas religiosas afro-brasileiras e indígenas, especialmente no Norte e Nordeste do Brasil. Eles circulam pelo Tambor de Mina, Pena e Maracá, Pajelança, Jarê, Toré, Catimbó, Jurema e Umbanda, entre outros, movendo-se entre diferentes territórios e regimes de cuidado.
A maior parte dos encantados é entendida como seres que viveram na terra como humanos e desapareceram sem passar pela morte, tornando-se encantados; outros sempre existiram como espíritos. Eles se organizam, entre outras formas, em famílias constituídas por relações de sangue e de consideração — termo que se refere a vínculos de afeto, adoção e cuidado que também produzem parentesco.
Os encantados não possuem uma única história ou uma ontologia fixa. Ao contrário, são conhecidos e percebidos de múltiplas maneiras, dependendo da forma como “se apresentam”. Recebidos nos corpos de homens e mulheres, também se manifestam em sonhos e através de diferentes sensações corporais, por meio das quais se comunicam com as pessoas.
Codó, terra de força
A família mais proeminente dentro do terecô de Codó é a de Légua Boji Buá da Trindade, um conjunto de entidades associadas à vida rural, ao gado, aos anzóis de pesca e ao trabalho na roça. Segundo o que é contado e cantado nas casas, a família de Légua é uma família que “anda muito”, tendo o movimento como uma de suas principais características. Ao mesmo tempo, apesar dessa constante mobilidade, muitas dessas entidades afirmam Codó como seu lugar de origem e morada — isto é, um território onde estabeleceram uma rede de relações marcada por visitas, passagens e incorporações, desenvolvida junto ao seu movimento pelo mundo.
Em Codó, cidade do interior do Maranhão, diz-se que o terecô era praticado originalmente nas matas, nos campos e especialmente nas margens de uma lagoa conhecida como Lagoa do Pajeleiro. Segundo narrativas locais, o terecô começou “nos tempos antigos”, na época dos “vodunsos velhos”, como eram chamadas as entidades recebidas por homens e mulheres. Sua presença está ligada à presença negra nessa região do Brasil e às histórias de violência e trabalho forçado que marcaram o contexto colonial.
Antigamente, as moradas das entidades localizavam-se nas matas e em elementos do mundo natural. Com o tempo, elas também passaram a se estabelecer nos espaços domésticos dos praticantes do terecô. Ainda assim, rios, pedras e árvores permanecem como importantes lugares de referência para alguns encantados. A relação entre essas entidades, suas práticas e as matas de Codó também aparece em outro nome dado ao terecô: tambor da mata. A cidade é historicamente associada a uma força religiosa específica e atualmente abriga mais de 300 espaços rituais. Ela é entendida tanto como um lugar de força quanto como morada de uma ampla variedade de entidades. Ao mesmo tempo, para além de sua referência geográfica e cartográfica, ela também é uma “linha de trabalho” — a linha de Codó, ou da mata — isto é, uma forma de operar no mundo através da religião.
The enchanted and the people
Codó is a municipality in the interior of Maranhão, in northeastern Brazil. According to the IBGE, it had 114,275 inhabitants in the 2022 Census and an estimated population of 118,283 in 2025. The city is widely known for the presence of Terecô, an Afro-Brazilian religious tradition strongly connected to the region’s Black, rural, and Afro-Indigenous histories.
Today, terecô is organized around cult houses led by mães and pais de santo, where rituals take place and a wide range of entities are received in the bodies of women and men. While much of religious experience unfolds within these ritual spaces, the presence of the encantados — as these beings are broadly known — also extends into everyday life, marking the homes and streets of Maranhão and shaping the lives of those with whom they relate.
The entities received in the houses of Codó are highly diverse. Encantado is a general term used within terecô, but these beings are also present across a range of Afro-Brazilian and Indigenous religious practices, particularly in the North and Northeast of Brazil. They move through Tambor de Mina, Pena e Maracá, Pajelança, Jarê, Toré, Catimbó, Jurema, and Umbanda, among others, circulating across different territories and regimes of care.
Most encantados are understood as beings who once lived on earth as humans and disappeared without undergoing death, becoming enchanted; others have always existed as spirits. They are organized, among other ways, into families formed through relations of blood and of consideração — a term that refers to bonds of affection, adoption, and care that also produce kinship.
Encantados do not have a single history or a fixed ontology. Rather, they are known and perceived in multiple ways, depending on how they “present themselves.” Received in the bodies of men and women, they also manifest in dreams and through a range of bodily sensations, through which they communicate with people.
Codó, land of force
The most prominent family within the terecô of Codó is that of Légua Boji Buá da Trindade, a set of entities associated with rural life, cattle, fishing hooks, and work in the fields. According to what is told and sung in the houses, the family of Légua is one that “moves a lot,” with movement as one of its defining traits. At the same time, despite this constant mobility, many of these entities affirm Codó as their place of origin and dwelling — that is, a territory where they have established a network of relations marked by visits, passages, and incorporations, unfolding alongside their movement through the world.
In Codó, a town in the interior of Maranhão, it is said that terecô was originally practiced in forested areas, in the fields, and especially along the banks of a lagoon known as Lagoa do Pajeleiro. According to local narratives, terecô began “in earlier times,” in the era of the “old vodunsos,” as the entities received by men and women were called. Their presence is tied to Black presence in this region of Brazil and to the histories of violence and forced labor that shaped the colonial context.
In earlier times, the entities’ dwellings were located in forests and in elements of the natural world. Over time, they also came to establish them within the domestic spaces of terecô practitioners. Still, rivers, stones, and trees remain key sites of reference for some encantados.
The relationship between these entities, their practices, and the forests of Codó is also reflected in another name for terecô: tambor da mata (drum of the forest). The city is historically associated with a particular religious force and is currently home to more than 300 ritual spaces. It is understood both as a place of strengh and as the dwelling of a wide range of entities. At the same time, beyond its geographic and cartographic reference, it is also a “line of work”—the line of Codó, or of the forest — that is, a way of operating in the world through religion.